Ohayou minna-san! Aqui é a Any, do {Forever Sapo}. Este é um blog onde direi, sem compromissos, qualquer coisas que me venha à cabeça, através de posts desconectados entre si. É só uma forma de matar saudades da blogosfera.

06 agosto 2017

Problematizando a problematização


Toda a gente neste cantinho sabe que eu sou uma das pessoas mais problematizadoras da blogosfera, certo? Pelo menos eu sinto-me em parte responsável por ter ajudado a pegar moda essas análises sobre representatividade. Agora, o que eu acho que ninguém sabe, é que dá para problematizar a problematização em si, e cada vez mais eu o tenho feito, pois descobri que muita gente problematizadora faz uma bola de neve com os seus argumentos e acaba por considerar tudo proibido, sexualizado, romantizado... mesmo quando claramente isso não se verifica. Moral da história: problematizar é bom, mas também importa saber discernir limites. Para isso, eu irei falar de alguns dos tópicos mais comuns de representatividade (ships lgbt+, personagens femininas, poc e assuntos gerais), e fazer uma lista de críticas legítimas e ilegítimas, e dizer porquê. Irei inicializar tudo com um glossário, que basicamente contextualiza quem são as variantes de radfems e quais os seus argumentos comuns - mas quem quiser pode pular essa parte.

O post que me levou a começar a aprofundar este assunto foi [este bebé], pois basicamente mencionava várias das coisas que já ando a notar há alguns meses sobre como feministas Radicais tentam excluir e vilanizar toda a gente que não consideram aceitável, propagando isso através dos fandoms.

~gifs the korrasami porque elas sãos as minhas unproblematic favs~

Contexto e Glossário

Como eu já disse, as tretas começaram quando os fandoms se cruzaram com o feminismo... encontrando, infelizmente, feministas radicais. Para quem não sabe, feministas radicais nem deviam ser consideradas feministas porque contradizem alguns dos princípios básicos do feminismo dão-se bem com gente conservadora e ajudam a perpetuar vários dos seus valores, e frequentemente ramificam-se em categorias específicas, facilmente encontradas especialmente em fandoms e espaços lgbt+. Aqui estão algumas delas - agradeço a [este glossário] por servir de base:

Feministas radicais/RadFems» Termo guarda-chuva para pessoas que se intitulam feministas e, de facto, querem dar direitos às mulheres, combater o patriarcado e denunciar o sexismo como a origem de todas as formas de opressão. O problema é que a corrente detém muitas premissas contraditórias ao próprio objetivo do feminismo, e é dominado por pessoas extremistas, intencionalmente ou não. De que forma se nota essa contradição, dentro até da própria corrente?: 
  • Através da humilhação de mulheres que são sexuais, e da sexualização de pessoas assexuais, partilhando ideais conservadores. 
  • Tratando homens trans como mulheres que não percebem que mulheres podem ser masculinas, mulheres trans como homens de saia e predadores sexuais, e não aceitando que pessoas trans não vistam roupas tipicamente-do-género-com-que-se-identificam apesar de afirmarem que toda a gente deve ter o direito de se vestir como quiser.
  • Encarando homens como inimigos, ameaças, pessoas que não têm dificuldades e predadores, mesmo clamando que são a favor da igualdade de género.
  • Clamando que querem acabar com o conceito de género, apesar de não estarem dispostas a tomar nenhuma medida na prática para fazer isso (opõem-se a medidas como, por exemplo, acabar com a segregação das casas de banho).
  • Policiando a identidade das pessoas, frequentemente para as silenciar ou dizer que não estão a respeitar o seu local de fala, dificultando a vida particularmente a quem não é gay, lésbica ou trans com passabilidade perfeita.
  • Anunciando que "toda a forma de heterossexualidade é compulsória", isto é, que relacionamentos entre pessoas de sexos diferentes são SEMPRE resultado de homofobia internalizada, e que quem tem a "opção" de gostar de alguém do mesmo sexo e não o faz (como pessoas bi) são um alvo a abater.
  • Tentando transmitir essas noções a menores de idade, sob a desculpa de que mulheres sofreram lavagem cerebral e que o patriarcado as está a abusar.
Exclusionista» Pessoa que suporta a exclusão de certas pessoas de espaços supostamente criados para apoiar quem pertence a grupos menos privilegiados - por exemplo, excluir mulheres trans ou sex-workers de espaços feministas, ou dizer que assexuais não são lgbt+... - com base no argumento de que essas pessoas não são oprimidas que chegue. 

Discourser» No tumblr, "discourses" são um tipo específico de discursos, focados em deslegitimar a validade dos argumentos de determinados tipos de pessoas por conta da sua identidade. "Assexuais são no fundo héteros que não gostam de sexo, então não podem opinar sobre assuntos lgbt+". O problema é que embora isso jogue com um conceito importante - o de lugar de fala, que diz que a opinião de quem não pertence a uma minoria não se deve sobrepor à da própria minoria - discoursers manipulam definições para acusar qualquer pessoa com uma opinião oposta à sua de que não estão a respeitar o seu lugar de fala.

Femistas» Focam-se na luta entre os sexos. A maioria nem se dá ao trabalho de disfarçar que odeia homens.

TERFs» "Trans Exclusionary Radical Feminist", focam na questão das identidades trans. Clamam que todas as identidades não-cis são fruto de uma ideologia de género: Todas as pessoas designadas mulheres à nascença são mulheres e que as que se identificam como homens trans ou não-binárie foram pressionadas a rejeitar a sua feminilidade; Já mulheres trans são homens de saia que querem invadir e aproveitar-se de mulheres em espaços propiciados só para elas (safe spaces)
TWERFs» "Trans Woman Exclusionary Radical Feminist". Afirmam o mesmo que as anteriores, mas são capazes de suportar "todas as mulheres", isto é, todas as pessoas que têm uma vagina pois têm pena de como essas pessoas foram pressionadas para não se considerarem raparigas só porque não cumpriam com o estereótipo de mulher da sociedade - sim, elas acham mesmo que uma pessoa se considera trans por causa daquilo que veste e assim. Já mulheres trans e pessoas amab, odeiam. 
SWERFs» "Sex Worker Exclusionary Radical Feminist", focam na ideia de que o patriarcado é que fez todas as pessoas do sexo feminino (que elas classificam como mulheres) acreditar que gostam de homens e de certas coisas "perversas" como sexo, bdsm, pornografia, ser prostituta (principalmente se não foram "vítimas da circunstância")...

REG» "Reactionary Exclusive Gatekeeping", consiste primariamente em excluir identidades lgbt+ que, segundo quem toma essa atitude, não são suficientemente odiadas pela sociedade e não merecem suporte nem "invadir" espaços lgbt+. Os grupos mais atacados tendem a ser, do mais para o menos, arromânticos, assexuais, pessoas intersexo, pessoas não-binárias, pessoas bi+, pessoas trans. Falei um bocado sobre "as olimpíadas da opressão" [aqui].
Gatekeeper» É essencialmente uma pessoa exclusionista, mas tende a focar-se em armar confusão dentro da comunidade lgbt+, policiando identidades dentro desse grupo. Também pode desmerecer a intersecção entre ser-se lgbt+ e de outra identidade qualquer (por exemplo, ignorando questões raciais ou assim)

Antis» Focam-se em problematizar fandoms, principalmente dividem-se nos grupos abaixo e vilanizam tudo aquilo que classificam como "abuso", "fetiche" ou "pedofilia/incesto", embora não hesitem antes de distorcer o significado dessas palavras para que os seus argumentos exagerados sejam sempre válidos. A cultura/movimento Anti é marcada por:
  • Argumentos superficialmente razoáveis como "Abuso é uma coisa má e devemos criticar quando este é retratado" ou "Não é possível suportar pedofilia só na ficção, isso manifesta que a pessoa também a suporta na realidade" para atrair ouvidos inocentes
  • Distorção dos conceitos principais, por exemplo, chamando pedofilia a um relacionamento entre uma personagem de 17 e uma de 19: [aqui] as aplicações mais típicas.
  • Evitar que seguidores tenham contacto com quem possa apresentar a perspetiva do outro lado da discussão ou simplesmente discordar (mesmo que não tenha um "lado") afirmando coisas como "Esta pessoa shipa abuso, devias ter cuidado com ela".
  • Exigir provas de lealdade dos seguidores, como "Não podes ser amiga de uma pessoa que shipa isto" ou "Se continuares a usar definições tão técnicas só estás a desculpar os teus próprios ships problemáticos".
  • Fazer pressão para sabotar a produção de conteúdo de algo a que se opõe, por exemplo, organizando ataques anónimos que podem incluir incentivos para suicídio e assédio contra pessoas que produzem fanarts ou fanfics de determinado ship odiado.
  • Levar à perseguição, agressão (normalmente verbal), difamação, desumanização e isolamento de quem se opõe através de criação de conteúdo ou argumentação ao que antis afirmam. 
Anti-dark content» Opõem-se a histórias sangrentas, sexuais ou que representem abuso, basicamente afirmam que só histórias leves são saudáveis. Também odeiam quando vilões são carismáticos.
Anti-shipping» Oposição a ships que consideram abusivos, às vezes afirmando coisas como "o ship é incesto" só porque uma personagem afirmou para outra que NÃO É BIOLOGICAMENTE DA FAMÍLIA que é como um irmão, entre outras coisas.

A problematização

Questões lgbt+
O maior número de ataques é contra ships yaoi e fujoshis, e muitos desses ataques não são válidos. Antes de mais, há problemas reais nos fandoms yaoi/bl? Sim, sem dúvida, mas o contacto com o feminismo - embora este tenha trazido por arrasto o radical - já ajudou a quebrar muitos desses problemas. Os que ainda persistem mas estão a receber mais cuidados são:

Misoginia e fetichização de casais mlm» Muitas das vezes, fãs de yaoi odeiam a aparição de personagens femininas, pois temem que elas só estejam lá para complicar o romance do casal yaoi principal. E embora essa seja uma narrativa verdadeiramente comum em mangás classificados como yaoi (ou seja, não sendo um receio que caiu do nada), prende-se muito com o conceito de rivalidade feminina de que falei num [post anterior] - neste caso a mulher aparece para roubar o ship e causar treta, e mesmo que não apareça para isso ou que um casal do mesmo género nem seja canon (oficial), é suspeita de tal e  frequentemente insultada. Como se não bastasse, neste caso, o termo fetichização (embora não seja a melhor escolha de palavras, como irei mencionar mais tarde) refere-se ao facto de muita gente fujoshi shipar yaoi, mas detestar yuri - o que denota uma forte lesbofobia - e muitas outras pessoas serem até homofóbicas na "vida real". Basicamente, para essas pessoas, casais lgbt+ são só o entretenimento favorito por muitas vezes incluir pornô gay. Isso de certa forma explica-se pela forma como o yaoi surgiu dentro do género shoujo, sob a desculpa de um romance que não estivesse limitado por padrões de género - o problema é que, sendo escrito maioritariamente por mulheres heterossexuais para outras mulheres hétero, elas não se preocupam em saber como é que casais mlm (men who love men) vivem realmente, quais os obstáculos que enfrentam, como é que é a divisão de papéis, como é que o romance se desenvolve realisticamente... Mais [nest artigo], que só deixou de fora que há também o género bara, normalmente mais realista e frequentemente criado por homens, ainda que não menos sexualizado.

Papéis de género com base em estereótipos das personagens» Pelo menos fujoshis que acompanham animes/mangás yaoi conhecem bem os termos seme e uke (ativo e passivo, top e bottom, basicamente). E não é que esses papéis não existam na vida real - o problema é como eles são, dentro de um fandom, determinados como absolutos simplesmente tendo por base qual das personagens no casal parece mais feminina e masculina - e ai da fã que sugerir papéis distintos, ou que diga que o casal é flex, porque é logo atacada em certos grupinhos! Então isso não só eclipsa a dinâmica de muitos casais reais, como propaga a moda de criar casais masculinos onde uma das personagens é estereotipada como feminina (mais delicada, tímida, tsundere, faz as tarefas de casa...) e outra como masculina (mais alta e forte, autoritária, confiante, vai trabalhar...). Lembrando de novo que não é um problema em si retratar alguns casais que caiam em estereótipos de género - o problema nunca é aquilo em que os estereótipos consistem, mas a frequência com que se repetem.

Romantização da pedofilia/incesto» Aaaaaahhhh este realmente é um dos problemas mais graves. Romantização consiste em não ver problema, e até achar fofinho, em algo problemático, e nenhum dos subtipos acima é exclusivo do género yaoi, embora predominante. O que eu considero menos problemático é o incesto - sinceramente, os animes já me deixaram imune ao incómodo, seja entre irmãos ou primos, e desde que não haja abuso, nem pedofilia, e que tudo seja consensual, não sei porquê sabotar um relacionamento possivelmente saudável com base apenas em laços familiares. Agora, o problema da pedofilia - frequente em Shotacons, embora também hajam Lolicons - é bem mais assustador e veio ao público quando o mangá Super Lovers foi adaptado - se ainda fosse uma diferença  de 2 ou 3 anos entre pessoas aproximadamente na mesma fase da vida (ex, um adolescente de 17 e um jovem adulto de 19), não teria grande problema embora isso fosse depender do respeito entre as personagens, mas com Super Lover temos uma criança de uns 8 anos e um adulto de para aí 20! É realmente algo muito extremo, a personagens de 8 é muitíssimo mais inocente e ficaria totalmente dependente da outra, e mesmo que como digam não haja envolvimento físico com a personagem nessa idade, mesmo mais tarde seria de duvidar até que ponto consenso é algo consciente. Uma introdução no contexto desse anime [www www]. E quanto a histórias que não envolvem pedofilia, envolvem personagens de adultas, mas há uma grande diferença de idade? Aí a questão depende do quão saudável é o relacionamento - [aqui] um exemplo que pega num yuri.

Romantização do abuso/estupro» É algo igualmente preocupante, e eu nem sei como é que quem faz isso não percebe que está a ser extremamente machista. Normalmente este tipo de romantização ocorre dentro da própria história, de forma semelhante à que acontece em muitos "romances héteros": a personagem "mais feminina", que se calhar até gostava da outra, é pressionada para fazer sexo ou beijada à força. Mas o problema nem é as violações, pois estas poderiam ser usadas como crítica, ou para contribuir para uma ambientação dark - o alarmante é quando a personagem estuprada desenvolve sentimentos por quem a abusou. E como é que as pessoas reagem à retratação disso nos yaois? Da mesma forma que reagem a isso noutro tipo de histórias, ou mesmo a vítimas na vida real: "Ele gosta!", "Estava a pedi-las", "Cu doce", "Se não gostasse não ficava" (como se personagens fictícias tivessem sentimentos próprios e não fossem controladas por quem as escreve), "Está a fazer-se de vítima", "Se namora não pode ser estupro" (se alguém te emprestar o carro uma vez, pode começar a pegar sem pedir?). Não só isso é algo horrível, como é um desrespeito horroroso para com pessoas que já foram vítimas de abuso, que estão a ter a sua experiência invalidada, distorcida e minimizada. Exemplos concretos no post de Hari, fujoshi mais queridinha: [www]

Transfobia» Vale lembrar que a transfobia é comum em todo o tipo de mídia, nos animes assumindo uma forma muito específica - e quando digo animes, não me refiro apenas a yaoi: é extremamente recorrente em shoujos, e até em shounen como [Steins;Gate] e [One Piece]. Nos animes, a transfobia às vezes não se reflete em personagens mal desenvolvidas, mas no uso delas como alívio cómico, desculpa para não serem um interesse romântico (afinal, tendo um pénis o protagonista não pode gostar delas), e são frequentemente tratadas com os pronomes errados ou como simples crossdressers. Há TONELADAS de exemplos e muita polémica em torno deles, porque às vezes nem quem percebe do assunto consegue saber qual a identificação e tratamento correto das personagens, seja pela incoerência com que a personagem é retratada pelos/pelas mangakas, seja por coisas como [erros de tradução] (caso famoso: a Grell de Kuroshitsuji, que é mulher trans) - até porque a língua portuguesa não tem como oficial o [tratamento neutro], então em casos como a personagem Inukashi de No.6, quem traduz só utiliza o pronome que achar mais adequado. Apresento [estas] [análises] como introduções adequadas. Vale lembrar que em muitos casos quem escreve as obras nem sabe que ser trans é diferente de ser gay [www].

Queerbaiting» Traduz-se como "isca queer/lgbt+", basicamente consiste em 1) insinuar um relacionamento entre duas pessoas do mesmo género, através de uma relação de apoio incondicional entre elas e até alguns elementos românticos, que depois não é concretizado 2) dizer que determinado relacionamento queer receberá muita atenção e depois dar-lhe pouca em comparação com casais hétero 3) prometer que o casal do mesmo género será devidamente representado, por exemplo evitando certos estereótipos ou fugir de tropes como a seguinte, mas não cumprir. O 1 é o exemplo mais comum (série Sherlock e outras, livro Harry Potter Cursed Child, animes Hibike Euphonium e Free!...), mas o 2 aconteceu recentemente em, por exemplo, Supergirl, e o 3 causou em The100. Queerbaiting não é um problema por parte do fandom, mas dos produtores, que manipulam pessoas lgbt+ e fãs desse tipo de representatividade iludindo-nos com a chance de sermos respeitados

Trope "Bury Your Gays"» É outro problema cometido não pelos fãs, mas por quem produz a mídia. É extremamente comum que, em casais do mesmo género, pelo menos um dos membros morra (se o casal tiver uma personagem bi e outra gay/lésbica, tende a ser a personagem gay ou lésbica, e depois a personagem bi é tratada como se fosse apenas hétero) - e mesmo quando não caem na trope, costumam ser alvo de algum episódio trágico. O problema não é exatamente a morte - o problema é que normalmente já não há muitas personagens lgbt+ para começar, então ao contrário do que acontece quando se mata personagens não-lgbt, não sobrevivem muitas para contar a história... Há outro problema, que se prende com as origens da trope: hoje em dia, ela é muito usada sob a desculpa de crítica à sociedade, ou como forma de chocar o público (embora sem propósito nenhum continue a ser trope, e honestamente eu acho que quem faz isso para chocar não percebe que espantaria de longe mais ver personagens queer vivas e felizes). Contudo, a trope foi criada precisamente para permitir que personagens lgbt+ fossem representadas - as editoras que queriam deixar que personagens lgbt+ aparecessem não podiam correr o risco de estar a fazer propaganda gay, então impunham a condição de que as personagens morressem no fim. No estado atual, a trope é um desrespeito pelo propósito da sua criação. Para saber mais, procurem pela mobilização "lexa/lgbt fans deserv(ed) better" [1 2 3 4 5]

Ok, mas agora estão a ver aqueles problemas iniciais que eu listei? O problema torna-se ainda pior quando ele é apresentado como algo absoluto, como algo que todas as fãs cometem, tingindo a comunidade fujoshi como um grupo inteiramente tóxico e inconsciente, quando na verdade é a própria comunidade que dá início à problematização e propõe formas de reduzir os problemas - aliás, foi a comunidade fujoshi que me fez aprender sobre representatividade, e estou-lhe grata por isso. O que eu vou fazer agora é pegar na versão exagerada dos argumentos, e mostrar que não podem ser generalizados a torto e a direito:
  • Primeiro, fetichizar verdadeiramente consiste em pegar coisas não sexuais e tratá-las de forma sexual - como objetos, géneros ou partes do corpo. Então mesmo que isso aconteça em alguns casos, é mais comum no caso de misoginia e machismo, como mencionei no tópico anterior. E chamar de fetiche gostar de um casal de personagens que começam como amigos, têm um relacionamento saudável e são fofos é um exagero.
  • Depois, embora hajam fics e doujinshis pwp (Porn Without Plot ou Plot What Plot), na maioria cenas de sexo ocupam uma parte mínima do conteúdo criado por fãs. Sim, [mínima]. Nem toda a gente nos fandoms é tão pervertida assim, a maioria até procura fluff. E muitos temas dos mais problemáticos são [detestados] pela maioria das pessoas - a sério, esse ultimo link é uma pesquisa mesmo profunda sobre fanfics.
  • Muita gente culpa mulheres hétero por ships mlm mal representados e objetificados. Ora, embora fandoms sejam primariamente dominados por pessoas afab, 1) não são a totalidade, e "gay porn" não é consumida só em fandoms 2) grande parte não é hétero 3) grande parte não é cis.
  • Sobre 1, grande parte dos homens são gay ou bi, mas também há vários homens que se identificam como hétero a consumir gay porn, e foram homens que tornaram a porno mlm popular fora dos fandoms, para além de serem responsáveis pelo género Bara, não menos objetificado: [www]
  • Sobre 2, muita gente diz que pessoas afab não gostariam de ver isso feito com duas mulheres, mas a maioria das pessoas tem ships yuri também. Há de facto quem seja hétero, e dentre esse grupo, quem seja lesbofóbico e se calhar só aceita casais mlm na ficção, o que é um problema - mas o problema é especificamente dessas pessoas, não do fandom. Há gente preconceituosa em todo o lado, e tratar fujoshis como gente anti-lgbt+ é invalidar a identidade de muitas das pessoas que são fujoshis.
  • Devido a 2, não se pode generalizar dizendo que mulheres hétero estão a apropriarem-se de experiências gays. Além disso, mesmo que praticamente só houvessem mulheres hétero, pessoas podem informar-se sobre boa representatividade - se algumas não o fizessem, era problema da pessoa, não de novo de todo o fandom.
  • Associado a 1 e 2, imensas pessoas afab suportam e consomem wlw (women who love women) porn, e isso não é sexualizar-se a si própria - mulheres já são, frequentemente, seres sexuais, apenas têm a sua sexualidade abafada - mais na ultima secção. Além disso, imensos homens hétero produzem e consomem wlw e isso não quer dizer que seja algo mau por si. Depende de como é feito, de como é o espaço onde é publicado, etc... Isto não é uma luta de sexos, muito menos de sexualidades. Ou não devia ser...
  • Curiosidade sobre 3, fics mlm ajudam muita gente afab a descobrir-se trans ou nb. Só dizendo. Muitas das vezes, tentar impedir pessoas afab de escrever sobre a experiência entre dois homens pode ainda ser pior porque está a impedi-las de explorar a própria experiência e a própria identidade. 
  • Ainda associado 3, muita gente acredita que genderbending é algo problemático e que todos os os genderbending deviam ser trocados para trocas de cis para trans. Ora, embora o típico genderbending tenha problemas quando é sempre feito de homem cis <para> mulher cis, e quando é usado para shipar personagens só se forem de géneros diferentes, não é preciso acabar com esse tipo de gender swaps: é possível introduzir gender swaps para personagens trans e nb sem acabar com os originais, e os vários tipos têm até propósitos diferentes. Nota» o termo genderswap passou a genderbending precisamente para incluir géneros nb: [www www
  • É melhor ir tendo representatividade com tropeços do que nenhuma - no caso, tentar escrever personagens lgbt+ leva a um certo progresso e a mudança de mentalidades, mesmo que nem toda a gente esteja disposta a mudar: [www] Eu já escrevi coisas muito más, até sobre a minha própria orientação, mas tive de começar a aprender por algum lado
  • Há um número maior de ships yaoi, é facto. Mas isso deve-se primariamente ao facto de em muitos shows haver menos personagens femininas, e as que comparecem não têm (tantas) interações, tornando mais difícil shipá-las por não haver backstory [www] - e shipar sem interações descumpre o propósito de shipar (primeiro ponto da segunda parte da secção sobre género e sexualização)
Antes de acusar, seria bom ter uma ideia melhor do que o outro lado é, faz e afirma. Nada desta contra-argumentação visa silenciar homens que gostam de homens nem desmerecer várias das suas críticas - já imensa gente o faz e eu reconheço que isso é grave. Mas seria bom parar de generalizar sobre fujoshis e shippers, parar de acreditar que todas são inconscientes e principalmente parar de presumir a sexualidade e géneros delas.

E não vamos esquecer que o yuri não está isento de problemas, certo? Está [aqui] um post que cobre vários dos problemas, embora caia uma ou outra vez no erro da generalização.

Questões de género e sexualização
De novo, vamos começar com os argumentos válidos:

Sexismo» Há bastante machismo, misoginia, misandria e sexismo nos fandoms e nas obras que os originam. Especificamente sobre animes, eu recomendaria por exemplo [este post], mas vai dar tudo ao mesmo: há um diferenciar no tratamento entre personagens do sexo masculino e feminino. Animes não têm uma desigualdade numérica tão grande como outras formas de mídia entre personagens do sexo masculino e feminino, mas a distribuição de papéis continua a ser bastante desequilibrada: por exemplo, há raríssimos animes de desporto com personagens femininas diversificadas, e mesmo shounen ~até quando são escritos por mulheres! (D.gray man, FMA, Magi...)~ reduzem um pouco o papel das personagens femininas ou fazem a sua importância girar em torno da dedicação em fazer alguma personagem masculina ser bem sucedida. Além disso, há problemas dentro dos géneros/público-alvo/demografias: shoujos focam-se muito em encontrar o príncipe encantado (que às vezes até é um belo machista), já shounens focam-se em aventuras e lutas. Mesmo havendo exceções à regra, podia haver um pouco mais de equilíbrio...

Fanservice/Objetificação» Fanservice é um termo mais utilizado em termos de animes, enquanto que objetificação é um termo mais genérico e não se refere apenas a objetificação do corpo mas, de qualquer forma, deixemos já claro que o foco em peitos, calcinhas e poses desnecessárias é bastante irritante - em particular quando personagens afab são as mais objetificadas, de longe. Outras coisas irritantes são: roupas desadequadas à situação, como armaduras que não protegem o peito; quando a câmara dedica mais tempo ao corpo de uma personagem do sexo feminino do que ao seu rosto; cenas em que uma personagem do sexo masculino vê acidentalmente alguém do sexo feminino sem roupa ou a trocá-la, se considerarmos que nunca vi o oposto retratado (exceto no filme da Mulher Maravilha, vá); ou aquelas situações típicas de anime em que os nossos protagonistas shounen esbarram com a cara no peito de personagens afab; é acima de tudo desagradável quando o anime se foca no fanservice e desperdiça uma premissa interessante. Mesmo quando as personagens femininas têm um papel relevante e são bem desenvolvidas, o que não é incomum nos animes, parece que não seriam dignas desse papel se não tivessem uma aparência desejável. Este [texto] está melhor construído que o meu.
  • OBS1: como dito [aqui], fanservice no sentido de objetificação não é o único  tipo que existe, mas é o único que estou a criticar no post. 
  • OBS2: Embora hajam exemplos equivalentes de fanservice masculino e feminino, é muito mais frequente que o fanservice direcionado a homens que gostam de mulheres seja mais inusitado e degradante: por exemplo, Free é claramente um exemplo de fanservice para mulheres que gostam de homens ou para fujoshis, mas ninguém pode dizer que não faça sentido ver-se rapazes de tronco nu num anime de natação; também não se pode comparar o fanservice leve de animes como Kuroshitsuji com animes em que o ecchi é gritante (exemplo: Nanatsu no Taizai) mas normalizado - uma comparação mais aceitável seria  certos eps de Yuri on Ice. Então se homens hétero e bi se incomodam um pouco quando são usados para fanservice, seria bom terem empatia e perceberes que mulheres têm razões para se incomodar ainda mais. 

Estereótipos de género» Eu realmente recomendo que leiam o contra argumento a este argumento >.< Ora bem, os [padrões de género japoneses] não são assim tão diferentes dos ocidentais, então eu não vou diferenciar. Há uma série de coisas que ocorrem em quase todas as histórias e que já são tão banalizadas que até passam desapercebidas, mas que gradualmente são interiorizadas por quem assiste e levam à desumanização das pessoas. Alguns exemplos comuns: mulheres como vítimas a ser salvas, homens cujo valor é medido pelas suas conquistas, mesmo mulheres que lutam bem são arrumadas para o lado em momentos cruciais para a personagem masculina brilhar (pior é que se julgava que isso acontecia porque calhava de a personagem amab ser protagonista, mas em Rogue One a personagem afab é que protagoniza e o ataque final é-lhe literalmente roubado), mulheres usadas como inspirational porn (vejam mais sobre o exemplo da trope Manic Dixie Dream Girl aplicado a Shigatsu wa Kimi no Uso [aqui]), homens que se sacrificam por um trabalho, mulheres que afirmam que não querem casar, ter filhos nem ser donas de casa mas no fim a narrativa dá-lhes esse papel e elas agem como se isso fosse amadurecimento da parte delas, homens que não choram, personagens amab com uma narrativa de vingança... Em termos de fandom,..:
  • É um pouco assustador quando vemos essas mesmas noções reproduzidas em massa, embora estereótipos de género até sejam os menos reproduzidos em casais het... mas sejam comuns em casais do mesmo sexo (como eu referi nas problemáticas do yaoi)
  • Fãs do sexo feminino são tratades como fãs falses, e [este] texto ~por favor leiam!~ desenvolve bem a questão do #fakegeekgirl: são desafiadas para saber todos os detalhes de algo de que afirmam ser fãs (quando há imensos posers amab por aí que passam inquestionados), e o facto de se gostar de ships, fanfics, fanarts fofinhos e tudo o mais é usado como "prova" - por quem as quer desvalidar - de que não são fãs da obra em si. O facto de pessoas afab serem desvalidadas também se explica precisamente porque, ao criar conteúdo inclusivo, muita gente entende isso como uma ameaça ao canon, onde normalmente predominavam as visões dominantes da sociedade.
Romantização do abuso/pedofilia/etc...» Não vou elaborar estes pontos por serem muito semelhantes ao que acontece em obrar yaoi.


Porém, tal como com tudo, nenhum destes problemas se aplicam a preto e branco. Então cá vou lembrar aspetos importantes em relação a este assunto:
  • Há quem acuse fanfics de sexualização, mas até pode ser entendida como o oposto disso: o objetivo (de fics com cenas de sexo) é precisamente criar cenas dessas entre personagens que têm carinho uma pela outra, enquanto porn faz surgir sexo entre estranhos - claro que há exceções, mas a desculpa usada é consideravelmente diferente.
  • Pessoas afab que criam coisas com temáticas sexuais são acusadas de se estarem a sexualizar a si próprias por várias antis - o que parece escapar às antis é que é totalmente distinto haver consenso e estar em controlo da própria sexualidade. Mulheres tratadas mal por causa das suas fantasias é só outra forma de fazer afab sentirem-se mal por terem necessidades sexuais, logo uma noção que conservadores adorariam espalhar. 
  • Nudez, sexo, e até objetificação com o propósito de marketing não são algo minimamente problemático em si. O problema é quando comete pelo menos um destes erros 1) normalizar abuso 2) sexualizar menores 3) ser desigual em termos de sexo das personagens (por exemplo, Fairy Tail é um exemplo em que o fanservice masculino e feminino está equilibrado, não dando razões de queixa).
  • De certa forma relacionado com 1, há tipos de fanservice que não são tão desrespeitadores, isto é, quando mostram a personagem que está a mostrar o corpo em controlo da situação ou como alguém que o quer fazer - por exemplo, em Kakegurui o fanservice é uma forma de caraterização e de empoderamento das personagens femininas, e Bakemonogatari, embora nem sempre, tem cenas em que o fanservice também demarca personalidades fortes.
  • Relativamente a 3, fanservice com o propósito de ser alívio cómico  - ou mesmo outros propósitos que se prendam com o expectador e não com a personagem - pode ser bastante inusitado. Mas não tem problema aceitar nem acreditar nesse propósito se ele não discriminar no tipo de fanservice, sendo que animes como Fairy Tail não dão razões de queixa. 
  • Há quem diga que é mau utilizar o termo fujoshi, que significa "mulher podre", porque 1) Reforça que mulheres são depravadas por gostarem de conteúdo sexual/mlm quando não devia haver problema com isso 2) Admite que se gosta desse tipo de conteúdo e isso é mau. O ponto dois é ridículo pois, como disse, ninguém se deve sentir mal por gostar de sexo/shipar. O primeiro seria uma razão aceitável para parar de usar fujoshi e cada um está livre para o fazer, mas usar o termo conscientemente também é uma forma de reclamação e pode ser uma escolha política.
  • Se há obras são machistas e ou sexistas? Sem dúvida. Mas isso está em todo o lado, então se fossemos a censurar, provavelmente nada escaparia. Conversar e criticar sim, fechar os olhos aos problemas não, mas é possível assistir a algo tendo consciência dos seus problemas OU até mesmo reconhecendo que algo considerado problemático que não tenha impacto nas nossas vidas pode ter um impacto bastante real na vida de alguém. 
  • O problema dos estereótipos não é aquilo que eles retratam, até porque se baseiam na realidade - então não há, por exemplo, mal nenhum em retratar donas de casa, pois muita gente é feliz com esse papel. O problema é a frequência desses estereótipos, que contribuem para a noção de que quem foge deles está errado ou a passar por uma fase.
  • É preciso ter em conta que questões culturais, étnicas ou outras intersecções podem tornar uma trope que já começa a ser problemática, ou pelo menos é um estereótipo, numa conquista para a minoria representada. Mais na secção de questões raciais (ou façam logo Ctrl+F e procurem por "Moana").
  • Uma tendência recente em várias obras é mostrar heroínas que superaram o abuso a que foram submetidas, mas quase ninguém parece reparar que o mesmo não acontece com heróis masculinos - sendo que vários "homens" na vida real são sujeitos igualmente a situações abusivas e a taxa de suicídio de pessoas do sexo masculino é até maior - [aqui] um texto interessante sobre o paradoxo da taxa de suicídio. Por esse exemplo e por outros, é injusto não acreditar que pessoas amab têm mais sorte em todos os aspetos.

Questões raciais
Mais uma vez, vou começar com as críticas inteiramente válidas (diga-se de passagem que esta lista está longe de ser completa, e que eu me baseei grandemente [nesta página] por ainda não ser uma expert neste assunto. Também é relevante mencionar que estas são as críticas mais razoáveis.

Trope "Black man dies first" e estereótipos» Pode aplicar-se a qualquer personagem POC, não necessariamente homem e não necessariamente negra. As consequências são similares às da trope "bury your gays", sendo o problema principal não a morte em si, mas o facto de não sobrarem muitas personagens não-brancas, muito menos personagens bem desenvolvidas. Isso não só conduz a uma falta de representatividade, como reforça que quase todas as personagens não-brancas vivas caem em [estereótipos]: Homens negros? Lidam com drogas, ou são guarda-costas, ou violentos, ou lideram gangs; Mulheres negras? Empregadas ou babás, provavelmente, e nunca são o interesse amoroso embora possam ser o interesse sexual; Homens asiáticos? Provavelmente políticos corruptos, ou alguma espécie de guias-espirituais; Mulheres asiáticas? Exóticas, seja lá o que for que façam; Pessoas latinas? Normalmente a pele delas parece tão clara que eu honestamente nunca reparei nelas, então fiquem a recomendação de um [post]. E isso leva-nos ao próximo tópico...

Whitewashing + Racebending» Um combo arrepiante... Significando "branqueamento", whitewashing pode assumir várias formas e afetar até mesmo a história da humanidade. Exemplos recorrentes consistem em utilizar atores brancos para fazer o papel de personagens não-brancas, em utilizar efeitos especiais para deixar a pele ligeiramente mais clara, chamar "moreninha" a personagens negras, desvalidar as origens (pelo menos se forem significativas para a personagem) de quem é bi-racial, assumir que todas as personagens são brancas a não ser que afirmado o contrário... Em termos de fandom, é frequente que se deduza que personagens são brancas em caso de omissão, ou que personagens de cor sejam pintadas com tons muito brancos em fanarts. Há ainda um problema em relação a cosplays, que abordo na parte dos contra-argumentos. Racebending é outro problema típico de fandoms: consiste em trocar a cor de pele das personagens, mas é problemático quando só se retrata personagens de cor como "e se elas fossem brancas?". O problema relaciona-se com a atitude típica de uma pessoa "color-bind", isto é, alguém que afirma que cor não é importante pois somos todos humanos, mas na prática não nos trata como iguais e ainda é capaz de se irritar quando "papéis brancos" não são dados a pessoas brancas - portanto, só clama ser progressista para minimizar vivências POC. Ultima nota: há melhor post que [este]?

Whitewashing + Historical Accuracy» Eu decidi subdividir pois o branqueamento tende a manifestar-se de duas formas: na insistência em interpretar certas personagens como brancas (como dito acima), ou na insistência de que certas histórias só podem ter personagens brancas devido a questões históricas. Isso é extremamente comum em histórias passadas em cenários medievais - as pessoas negam que havia POC no tipo de cidades nórdicas retratadas, mas isso é mentira [www www www www www www www]. Mesmo que fosse verdade, querer exigir "realismo" enquanto se aceita dragões, elfos e outras criaturas só denota que se quer desvalorizar pessoas não-brancas. Há ainda quem seja mais neutro e não se importe com a dita representatividade, mas diz que a proporção de pessoas de cada cor devia ter uma relação com o clima das regiões visitadas, já que esse é um dos fatores que afeta a cor de pele e outras caraterísticas físicas na realidade [www] - mas nesse caso, o critério deve caber aos produtores.

Apropriação» Eu não me vou dar ao trabalho de elaborar sobre este assunto pois já fiz [um post inteiro] dedicado a ele, e basicamente o problema que ocorre na vida real é arrastado para as histórias e para o conteúdo produzido por fãs. Basicamente, apropriação é diferente de trocas culturais, e ocorre quando se verificam estes dois critérios: 1) Uma cultura maioritária/mais poderosa utiliza algo de uma cultura minoritária 2)... sem a permissão da cultura que deu origem a esse elemento, sem respeito pela sua simbologia e às vezes mesmo sem respeito pelos membros dessa cultura.

Vilanização» Em primeiro lugar, pessoas negras em particular  - embora outras pessoas de cor também o sejam - costumam ser acusadas de fazer críticas num tom agressivo e ameaçador, e quando estão a tentar apontar algo que as desrespeita, o conteúdo do que estão a dizer é ignorado por se focar na raiva delas, e na sua atitude "divisiva" - mesmo minorias fazem isso: no feminismo, as pessoas tendem a detestar que considerem que estão a criar guerras sem motivo e que não compreendam porquê que estão frustradas ao fazer certas críticas, mas se calhar segundos depois estão a usar o argumento que usam contra elas para abafar a crítica de pessoas não-brancas. Isso chama-se de "tone policing" e tem grandes repercussões dentro do fandom, pois é usado para não gostar de membros reais de um fandom, e mais ainda para ignorar dicas sobre como melhorar a representatividade. Algo que também se reflete é o facto de, na vida real, pessoas negras não poderem ser "inocentes" nem levar um tempo normal a amadurecer [www] - o que contribui para a fama de agressividade que se verifica também em muitas personagens. Ora, se as pessoas não conseguem entender a perspetiva de POC na vida real, não se darão ao trabalho de entender a perspetiva de personagens... Consequência? Personagens negras costumam ser detestadas (OBS: eu usei pessoas negras pois é o exemplo mais extremo, mas repito que não são as únicas a ter problemas. Por exemplo, Magnus Bane é asiático e tem muita gente que o acusa de predatório). Como se não bastasse, é comum que POC sejam escolhidos para o [papel de vilões], e também tendem a ser [menos shipados], mesmo quando têm potencial para ser um bom par para os protagonist.

Contudo, agora vamos ver algumas nuances:
  • Há quem diga que POC devem ter o direito a fazer cosplay de personagens brancas pois há poucas personagens de cor interessantes, mas depois exige poder fazer o cosplay de POC. Por oposição, há quem diga que só se devia fazer cosplay de personagens da própria cor de pele, e que é extremamente racista que brancos roubem personagens POC - mas isso desconsidera que pessoas não-brancas teriam muito menos personagens das quais se pudessem disfarçar. A solução, que eu encontrei [aqui], é bem mais simples: toda a gente pode fazer cosplay das personagens que quiser, desde que não faça cosplay da raça - isto é, importa evitar pintar a pele, principalmente de negro ou assim, porque tanto black face como yellow face têm origens opressivas.
  • Acusar fandoms inteiros de whitewashing é ignorar que é dentro dos fandoms que se vêm mais personagens POC - que cada vez mais têm vindo a ser celebradas - e que tem havido um número crescente de personagens brancas representadas como sendo de outras etnias/raças/cores [saibam a diferença] - um exemplo famoso que prova que racebending nem sempre é algo mau é a [Hermione negra]. E na verdade, muita gente até usa o termo "racebending" exclusivamente para personagens brancas transformadas em POC, usando whitewashing no sentido contrário.
  • Coisas que são consideradas estereótipos para personagens brancas às vezes estão longe de o ser, se a personagem não for branca. Por exemplo, Moana foi um caso falado pois enquanto muitas feministas elogiaram a personagem por ser independente, não ter um príncipe e tudo o mais, POC que tentaram lembrar que personagens negras raramente protagonizam um romance foram ignoradas.
  • Muita gente branca celebra a aparição de um casal do mesmo género por segundos mas considera "idiotice" ou "má representatividade" quando um casal lgbt+ de cor aparece nas mesmas condições (não por ser negro, mas pela forma como é tratado) - e para que conste, o problema não é que o casal não possa mesmo estar mal desenvolvido, o problema é ignorar que essa é das poucas chances que pessoas negras têm para celebrar, que brancos também celebram muita coisa mal representada pois por enquanto temos de nos contentar com migalhas, e nem parar para considerar que estereótipos podem ser um pouco diferentes para pessoas não-brancas - e eu sei que já disse isto, mas é para reforçar que tal se aplica a minorias distintas [www].
  • Vilanizar não é bom, mas comentários estilo tumblr como "She's a goddess" não são necessariamente melhores. Podem ser se forem ocasionais, mas se substituírem inteiramente análises profundas que normalmente são feitas em relação a personagens brancas, está-se a colocar pessoas de cor num pedestal e a ignorar as nuances da sua identidade.

Outras questões
Só uma ou outra consideração genérica:
  • "Pedophilia or paedophilia is a psychiatric disorder in which an adult or older adolescent experiences a primary or exclusive sexual attraction to prepubescent children." Muita gente começou a considerar pedofilia qualquer romance que envolva menores, e isso é bastante extremo. Principalmente se as pessoas envolvidas forem ambas crianças, pois crianças apaixonam-se umas por outras. 
  • Agora, o envolvimento de menores com adultos é que é mais preocupante, mesmo assim se a diferença de idades for mínima é uma questão de atentar noutros aspetos do relacionamento. Até a questão de grandes diferenças de idade no canon têm solução: se no canon uma personagem tem 14 anos e a outra tem, digamos, 20, mas o fandom as shipar mudando a que tem 14 para 18 anos e mantiver a outra 20, já não é pedofilia. Além disso, pode ser pedofilia shipar uma pessoa de 19 anos com alguém de 12 anos, mas shipar as personagens em adultos? Imensa gente tem pais com 7 anos ou mais de diferença de idade! Além disso, chamar pedofilia a qualquer coisa é até desrespeitar a vivência de sobreviventes: [www].
  • Muita gente receia que ships "pedófilos" sejam usados por pedófilos em si para aliciar criancinhas, mas é mais frequente que aconteça até o contrário: pedófilos querem ganhar a confiança da criança, então dizer que são anti-pedofilia ajuda a que elas confiem neles cegamente [www].
  • Há quem tenha começado a considerar ships com incesto qualquer ship em que as personagens afirmam ter um laço familiar entre si, mesmo que estas não sejam relacionadas pelo sangue. O que é simplesmente ridículo???
  • Mesmo que certos ships sejam abusivos, é mais abusivo ainda dizer que quem tem esses ships, pessoas reais, deve morrer [www].
  • Ships abusivos podem não ser uma coisa boa, mas ao contrário do que podem levar a crer, nem sempre normalizam o abuso: claro que há casos, esses sim problemáticos, em que o abuso é normalizado, mas se este for retratado como aquilo que é (em vez de ser romantizado) e ainda vier acompanhado de tags, é até mais provável que alerte pessoas em situação de abuso para o tipo de situação que estão a viver [www].
  • Produzir fics é uma forma de imaginação, e às vezes retratar coisas problemáticas é mesmo uma forma de as superar, de fugir disso, de ter controlo sobre elas ou de desejar finais felizes para quem atravessa tal [www]. Não implica aceitar essas coisas na vida real.
  • Muita gente diz que fics com estupro e abuso vão ser triggering para survivors, mas às vezes são les própries sobreviventes a usar essas fics como uma forma de expressar/desabafar aquilo pelo que passaram. Há antis que são mais permissivas e que dizem que só sobreviventes tem razão para escrever esse tipo de conteúdo, mas sobreviventes contestam o sentido disso (com argumentos como: ume adolescente não pode escrever da perspetiva de uma personagem adulta só porque ainda não passou por essa fase da vida?)
  • Darkfics - [info] fics que lidam intencionalmente com material perturbador (como tortura, violência emocional ou física, violações, aprisionamento, angústia, perdas, escravatura, ... normalmente criadas a partir de histórias mais light - normalmente ajudam survivors a lidar melhor com o que lhes aconteceu [www].
  • Ships e fandoms não são uma forma de ativismo em si, por muito que possam gerar gente progressiva e exigir boa representatividade [www]. Contudo, as linhas entre uma coisa e outra são cada vez mais ténues, até porque fandoms incluem muita gente que é ativista, e recentemente têm surgido casos como o que eu mencionei acima do We deserve better (em que os fãs quase conseguiram deitar abaixo the 100 por ser a gota de água na trope bury your gays).
  • Em relação à pressão para censurar/bloquear certas obras e para fazer as pessoas deixar de assistir qualquer coisa que seja considerada problemática, importa lembrar que afastar pessoas mais conscientes de um fandom com problemas irá contribuir para que os problemas se agravem, pois normalmente são as pessoas menos representadas que criam conteúdo diverso e inclusivo dentro de um fandom.
Nota final: eu teria adorado falar de mais assuntos ainda, em particular, pessoas com deficiências, da comunidade autista, pessoas gordas, religiões minoritárias, etc... mas o post já está enorme e ainda tenho muito a aprender sobre o assunto. Então prometo que quando estiver mais informada trarei uma parte 2 ;)

Como sobreviver num fandom?
Para terminar, dicas curtas para quem quer evitar ser envolvido em confusões:
  • Ser crítico sobre o conteúdo consumido e criado por nós.
  • Entender que algo que não nos magoa pessoalmente pode magoar muita gente, consequentemente, tomar medidas como colocar tags de TW para permitir que pessoas evitem conteúdo que as possa magoar (por exemplo, tagear #rape #abuse survivor #alcohol #dark fic #age gap #transphobia #non consensual #screaming #bipolar disorder #torture - mesmo que essas situações sejam temporárias)
  • Não se opor a ships, e evitar guerras de fandoms. Sim, pode ser difícil quando sofremos ataques primeiro.
  • Não responder a antis - sem combustível elas morrem [www]. Só se for ativista e estiver em condições de tentar comunicar ou retorquir. 
  • Se não se suportar/aguentar determinado tipo de conteúdo, tomar medidas para bloquear inserindo as tags que não se deseja ver. Pode ser relevante bloquear users que postem constantemente esse tipo de conteúdo. [bloquear users + proteger tumblr com passe] [bloquear tags para mobile | bloquear tags para pc]
  • Não iniciar nem retaliar abuso direcionado a alguém, não assediar a pessoa nem tratá-la como alguém "mau" por aquilo que acha.
  • A vítimas de abuso por parte de outros shippers, é melhor bloquear tudo o que cause desconforto e fugir de "tentativas de diálogo". Comunicação só é uma boa ideia quando so dois lados estão a ser respeitosos e as pessoas envolvidas estão em condições de ouvir.
Eu espero que tenha ficado claro no post que eu não estou a defender coisas problemáticas - que ninguém saia daqui a dizer que eu defendo pedofilia ou assim >.< O grave é quando definições são modificadas para atacar toda a gente com ships/opiniões de que não se gosta, até porque isso minimiza o impacto real dos problemas. 

Lembro que problematizar não tem em vista obrigar ninguém a parar de gostar de nada, porque gostos não se controlam nem se mudam de um dia para o outro - além disso, gostar de algo não nos impede de ser críticos sobre o que estamos a consumir ([aqui] o que várias das anti-anti fizeram para garantir espaços seguros). Por exemplo, eu gosto de vários yaois que romantizam o estupro, mas isso não me impede de ficar incomodada com essas cenas, nem de me impedir de saber de antemão que tipo de histórias envolvem isso para as evitar antes que me apegue às personagens.

Também lembro que problematizar não pretende acusar ninguém, muito menos de más intenções. Se você que está a ler isto alguma vez cometeu algum dos problemas descritos, não quero que se sinta culpado. Por um lado, porque culpa e desculpas não resolvem o problema. Por outro, porque se já foi racista/sexista/whatever, isso não é preocupante já que toda a gente o foi alguma vez, e o passo número um para alguém se tornar menos preconceituoso é precisamente reconhecer que se tem preconceitos, e será impossível ficar 100% desconstruíde: desaprender as noções que absorvemos demora bastante tempo, e os conceitos estão em constante evolução. Se realmente as suas intenções são boas, comece a consumir/produzir conteúdo criticamente, e corrija o que estiver nas suas mãos.

Importa reforçar que há sempre nuances à mistura e que, por muito que alguém diga que X é problemático, quase nada é realmente a preto e branco. Se alguém ouve que algo de que gosta é problemático, pesquisa sobre o assunto... e continua a não achar problemático, talvez tenha uma perspetiva que de facto anularia o problema. É possível. É possível que algo não seja problemático em algum aspeto, pois principalmente nas histórias, a nossa interpretação está sujeita à influência do nosso conhecimento e experiências. É uma conclusão válida - só peço que não seja usada como desculpa para minimizar o impacto que possa ter noutras pessoas.

Que saudades de quando era rápido fazer posts... >.< E já agora, recomendo a coluna [Vamos problematizar] de um blog que me foi muito útil. Ainda, achei [este debate] muito complexo e adoraria se alguém tivesse disposição para o ler um dia. Também achei [esta análise] sobre racismo e a intersecção com outros problemas em hollywood e nos fandoms muito completo - oh, e por favor vejam a analogia final, a da festa e dos pratinhos. E podem também dar uma olhada num [texto] que resume bem as atitudes de quem é anti e foi publicado no AO3: eu ainda só dei uma olhada nos tópicos contidos, mas fico com a impressão de que dirá coisas muito certeiras - aliás, pela leitura dos primeiros capítulos, nem sei porquê que gerou tanta polémica, sendo realmente um bom artigo.

Ah, posso deixar aqui uma citação que já encontrei há muito tempo, não sei onde (sadly, mas o que importa é não me darem créditos a mim) e que achei muito boa?

"Usar 'gay' para abranger todas as pessoas que não são cis-hétero  faz tanto sentido como usar 'maçã' para todas as frutas que não sejam pêras".

E caso alguém não tenha entendido, já há semanas que estou de férias de faculdade. Apenas continuo igualmente ocupada ;p


1 comentário:

  1. Olá flor <3

    Só passei rapidinho para agradecer por você ter me mandado o link do Radio Silence, fiquei imensamente feliz quando vi e tão logo o baixei – assim que a faculdade e outros problemas da minha vida derem uma acalmada por trata-lo de lê-lo na hora (porque, MEU ZEUS, estou empolgada para lê-lo e estou precisando relaxar a cabeça mesmo). Enfim, obrigada de coração <3

    E sei como é estar ocupada hahah – as coisas aqui estão uma tormenta sem fim, não só por causa da faculdade (minha vida gira em torno dela agora, se eu não a citar a cada 5 minutos é porque tem algo de errado comigo), mas por um monte de merda que resolveu se jogar no ventilador ao mesmo tempo hahahha (rir para não chorar, quem nunca?). Mas graças a Zeus não é nada que não se resolva, então vamo que vamo. E espero que esteja tudo bem ai com você e dê tudo maravilhosamente certo contigo <3

    E que saudades de comentar aqui aaaaaaa <3 ando tão fora da blogosfera T.T - o lado positivismo é que tem um monte post seu acumulado para ler, depois vou me esbaldar neles xD

    Não sei se te interessa, mas eu decidi isso a poucos momentos atrás e estou louca para gritar para todo mundo - e não só por ter decidido a pouco, mas porque nunca senti algo tão certo como isso antes. Decidi que vou me tornar advogada de direitos humanos (tava quase dando 5 minutos sem falar de Direito e da faculdade, não posso ultrapassar meu limite né?) e sei lá, é tão gostoso ter um plano (mais ou menos) concreto de como ajudar os outros e melhorar o mundo, ou algo assim hahah – e isso vai me levar a estudar ainda mais questões sobre LGBT+, desigualdades, violências etc

    Enfim, eu vou indo por agora. Mais uma vez, obrigada pelo link e espero q esteja tudo ok ai.

    P.S: E esse teu post – não li ele inteiro, mas pelo que bati o olho só posso dizer que está incrivelmente bem construído e argumentado <3 E KORASSAMI É AMOR DEMAIS MSM <3

    ABRAÇOS COM CHEIRO DE CHÁ VERDE PQ CHÁ VERDE É UMA PRECIOSIDADE DELICIOSA <33

    Bye bye!

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